quarta-feira, janeiro 27, 2010

Estação Nova

Quando as chuvas não trazem vida
Quando as asas carregam veneno
Quando as cobras procuram humidade
Quando os livros apodrecem amarelos
Quando a areia varre o sopro novo
Quando só a vida que mata floresce
Quando a terra corre fluída além de nós
Quando a Malária acorda as seis da tarde
Quando o vento voa nos cadáveres soltos
Quando as formigas furam tudo vorazes
Quando as barrigas incham de fome
Quando se aproxima Fevereiro
Quando a trovoada ribomba

São os passos da Morte

terça-feira, janeiro 19, 2010

(Mas era feitixo...)
In the face of Death, do not speak , she is without.

Recém Nascido

No fundo do formigueiro aberto
Lá está pequeno e dócil
Embrulhado em trapo branco
Pele da cor da terra escura
Segurando o terço que
sua mãe lhe deixou
Para que um anjo
O protegesse.

No fundo do formigueiro aberto
Lá está bem quieto e discreto
Embrulhado em lençol branco
Pálpebras fechados espera
Sob o entardecer do céu
Dorme pequeno
E não chora.

No fundo do formigueiro aberto
Lá está dormindo caladinho
Embrulhado num sonho branco
Olhos bem além do céu

Pudera ter caído
Pudera estar brincando
Mas é pequeno e dócil
E não vive.

sábado, janeiro 16, 2010

Diluvial

D

Após uma manhã de curtos trabalhos e de perseguir pessoas esticando anotações das necessidades imediatas, veio o P.Zé Luzia desafiar-me para depois de almoço seguirmos para Nacaroa. Pedida a autorização especial ao meu patrão aceitei o desafio. Fiz o par de telefonemas importantes para a LEYA e para a FDC e logo seguiram-se o par de e-mails e muita alegria na sensação de ter feito algo de valor. Depois de ter almoçado fiquei lendo um pouco, arranjei mochila e logo esperei Zé Luzia. Demorou e cedi a tentação de ir fazer um, dois, três jeitos na escola já que tinha um pouco de tempo. Zé Luzia chegou e foi agarrar na mochila e partir. Íamos fugindo das nuvens grossas, frondosas que se juntavam vindo a passos lentos de leste. Parámos na Faina para por gasolina e perdemos o adianto. Veio de gotas grossas, maiores que ontem e em nada estávamos como se numa tempestade tropical de filme. Água por todo o lado, água entrando para dentro do carro, eu a limpar o vidro com um trapo porque o sistema do carro não chegava, as poças enormes saindo dos buracos da estrada, as pessoas ora correndo ora indiferentes a chuva quente, e os carros em ainda maior confusão, saltando, derrapando, caindo. Passamos Nampula e o caminho para Namialo estava verde, verde, verde vivo de capim alto. Rodávamos mais rápido que a chuva e em breve estávamos em caminho já secos e o Padre não pode resistir às paragens para negociar castanha de caju. Falando-lhes Macua ria, apontava as malgas furadas, o caju mal descascado, tentava negociar um vestido contra caju e por fim enchia sacos e arrancava de novo. A maioria dos vendedores era meninos pequeninos e reclamavam o dinheiro para comprar livros para a escola. Seria só por uma vez verdade? Não importa, antes de ler ou escrever é preciso ter roupa e comida, mas entrava no jogo no regateio como tentativa de amolecer o Padre regateador habitué. Quando se acabaram as compras seguimos caminho com mais meia hora de atraso. Agora nos calcanhares da chuva que nos perseguia vinha a noite anunciada. Pouco depois de tomarmos a estrada para Nacaroa o céu lançou-se sobre nós em chuva e noite. Não caiu, não pingou, não se estilhaçou. Lançou-se. Diluvial. Os sacos de caju encheram-se de água e o meu trapo não melhorava quase nada a visão. Mais e mais água e o caminho parecendo cada vez mais longo e o destino parecendo cada vez mais longe. Pedíamos indicações e vinham a contra-senso. As mamãs fugiam de nós quando desacelerávamos. Íamos de trás para a frente e não víamos sinal da Missão. O P. Alexandre não atendia o telemóvel. Por fim depois de kilometros gastos em volteares dentro da chuvada pareceu-nos ver o sinal da Missão. Apontei-lhe a lanterna mas a lanterna só iluminava as gotas grossas que caíam mais perto. Arriscámos a entrada naquele caminho perdido no mato. O P. Zé Luzia disse reconhecer e eu senti alívio porque uma parte de mim já se via a passar a noite dentro do jipe trancado a beira estrada, a beira mato. O caminho só se complicava mais, buracos, raízes atravessadas, montes de terra e mais chuva e mais terra deslizando. Ao longe viam-se os fogos nos pátios macuas, cores de brasas meias caladas. O caminho não parecia acabar, parecia desdobrar-se a medida que o descobríamos. Veio-me a ideia de nos estarmos a meter no meio do mato e não a caminho da Missão. Mas quando já nós convencíamos de que era um caminho errado vimos as casas da Missão e sobre a trovoada a magnifica igreja de Nacarôa com o seu ar de Catedral. Que raio faz esta igreja de ares europeus e torreão no meio do mato? Eu disse rindo que agora apenas faltava que não houvesse ninguém a nossa espera. De repente uma luz branca apontou para nós e veio correndo. A casa do Padre Alexandre as luzes estavam todos apagadas e só a tempestade lançava raios para se lhe verem esboços. Era o guarda. “O Senhor Padre não está”. Caíram o Carmo e a Trindade. “Foi ver as irmãs.” Mais viagem e outro lugar no meio daquele mato mais uns 20 km a norte. Luzia teve a ideia de ver se a porta estava aberta. E a porta abriu. Entrámos na casa grande, com um corredor central de tecto muito alto. A trovoada ribombando parecia uma verdadeira casa dos filmes de terror de Hollywood onde um qualquer demónio se apodera dum louco que acaba matando todos numa casa perdida no meio da floresta. Impôs-me respeito e fez-me rir de mim mesmo. De lanternas na mão fomos tacteando a casa aos poucos. Roubamos a vela à capela e fiat lux. Encontrada a cozinha e a sala de jantar atacámos o que podíamos trincar. Não encontramos muita coisa visto que a dispensa estava trancada mas pelo gesto em que juntamos de aqui e ali comida foi um jantar em espírito frugal. Leite com chocolate e um pão com mel. Foi a primeira vez que me lembro de beber leito com chocolate a partir de água quente e um pozinho branco duma lata dizendo NIDO. O Padre comeu queijos da vaca que ri absolutamente podres nos seus pães. Logo auto-atribuímo-nos quartos e pousámos as nossas coisas. Feita a instalação o Padre decidiu ir buscar o Alexandre às irmãs. O guarda iria com ele e mostrar-lhe-ia o caminho. Rimo-nos do pequeno medo que sem palavras sabíamos ambos residir em mim. Mas lendo esvaiu-se, lia uma revista paroquial de informação sobre a SIDA, que me impressionou dada a sua clareza e a maneira como não se deixava cair em nós de sete línguas. Não notei que o padre não saiu, e só me apercebi disso quando ouvi a porta abrir e a voz contente do Alexandre. A última vez visto tinha sido há 3 anos em Bruxelas. Como o tempo transforma… Cá estava aquele jovem diácono agora mestre de uma Missão no meio do Mato. Ligou-nos gerador, mostrou-nos a casa e riu-se, riu-se, mostrou-me a sua rádio e contou como passava as vezes muito tempo a tentar apanhar bem uma emissora. Já era tarde, fomos cada a seu quarto depois de um pouco de conversa sobre o caminho diluvial, o amanhã e outros dias de entretanto. O vento soprando e da minha janela a enorme Igreja de Nacaroa, o seu torreão (que Zé Luzia baptizou Spoutnik) e sonhos na alma.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

De Nampula aos Grilos

Foi um pouco mais que uma semana e muito mais que tal. No primeiro dia de volta a Nampula despedi-me de um menino crescido da Ilha que voltava depois de 10 anos de ausência. Um encontro inspirador. Recolhido pelo P. Zé Luzia segui o ritual de reconhecimento da Cidade e as memórias foram voltando ao espaço da realidade, ganhando cores, acrescidas de detalhes, novos e de antes. Passei a manhã na ânsia de chegar à Missão com a sensação de que me esperavam com algum festejo. Estivemos na Rádio, o último sítio que tinha conhecido antes de partir. Mas logo se introduziram lugares de fora da memória. Um gabinete do governo provincial. Fora num banco, entre os cidadãos requerentes de audição, fui bebendo o movimento matinal na discrição que é o canto de um alpendre ao lado de uma parede cheia de declarações e anúncios e avisos do poder regional. Logo foi uma loja indiana. Nesta tomei gosto particular porque juntei a tal o conhecer de uma das famílias indianas abastadas de Nampula…o que não deixa de fazer sorrir. Assisti a conversa no seu gesto de Oriente e as falas dos negócios e a pausa para rezar e as inscrições em sânscrito e as suratas dissimuladas no escritório de tinta branca fresca. Veio o P. Jacob às mãos do acaso e saio sujando as mãos na tinta fresca por acaso. Dei pela situação mais engraçada da manhã, o chefe da loja com a sua camisa aberta sobre os pelos peitorais e com os seus 6 dedos anelares brilhando até ao rolex do pulso saiu. Voltando trazia uma pasta pokemon de criancinha; ela aberta tirou-lhe grandes maços de notas altas de meticais atadas ao elástico. Parecia de um filme onde se assaltara um banco. Mas o invólucro estava longe da pasta preta forte ou dos sacos castanhos-claros do far-west. Chegado o tempo de rezar saímos e seguimos para um almoço diferente do primeiro suposto (que era na Missão). Não é que foi o Sporting de Nampula. Não houve sopa de feijão e faltou a companhia do Joaquim. Mas chegou-nos uma companhia inesperada o João de Nacala com as suas filhotes e um filho que não tinha conhecido. Entre feijoadas e jardineiras a querer dizer Portugal passou as bocas e em breve era tempo de se despedir. Na avenida, perto do Museu e do colégio lusófono lá estavam juntos os muitos vendedores de frutas e legumes de época pronto a gladiarem-se com o P. Zé Luzia com o regateio. Mas desta vez nada se comprou e pós uma curta paragem o itinerário cedeu a minha insistência e fomos para o Marrere.

Tinha perdido o almoço e aparentemente não me esperava nenhum festejo. Na verdade por algum mistério o P. Pedro tinha pedido ao P. Zé Luzia que me alojasse. Nem tinham preparado quarto?!? Fui deixar as coisas a casa de Luzia e apesar de desapontado apreciei o reencontro com a pirâmide hexagonal que na minha primeira vinda orientara os meus sonhos. Chegando à escola apercebi-me de que tudo estava num enorme alvoroço. Chegavam os internos. Bem-vindos ao que estão de volta. Bem-vindos aos novos. Meninos da UNHCR são os que precisam de mais atenção. Burundi. Congo. Falo-lhes francês e isto fá-los sorrir um pouco. Encontro os conhecidos. Rui. Howard. Gérson. O congolês. O Engenheiro. O Advogado. Dionísio. Distribuir por quartos, contar baldes, colchões e lembrar regras. E o Pedro envia-me para ir ajudar as irmãs ao lar feminino. Novas irmãs. Vinham da Zambézia e de um lado para o outro indicavam as meninas os seus quartos, apresentavam-se, perguntavam por escadas, lâmpadas, avaliavam esta sua nova casa. Orientadas as meninas para os seus dormitórios assistimos a primeira chuva tropical. A chuva riachando a terra. Nós esperando, fui ouvindo histórias da Zambézia. Vinham para o lar 4 irmãs e estavam hoje a irmã superior, de Quelimane e um rapaz educado pelas irmãs, diligenciando-se. Fizemos pontes enquanto os muros de pedra esguichavam a água corrente. Marcamos as faltas, os sítios onde entrava água. Falei de como as coisas funcionavam antes, falaram-me de como queriam que as coisas funcionassem agora. Fiquei contente por ver o pulso, o novo sopro e despedi-me porque chegavam horas de jantar. Fui jantar com os Missionários. Foi calmo e no entanto resistia em mim o incómodo de não me ter preparado sequer quarto. Chegada a hora saí e a chuva caia gorda pesada…Acompanharam-me 3 amigos e foi bom falar um pouco daquilo que há tanto nada… Chegado o P. Zé Luzia riu-se do meu cortejo. Bebemos uma caneca de chá e pós um breve serão e o vapor de Agosto no ar foi cada qual para o seu quarto. Deitei-me e as minhas costas reconheceram o colchão-tábua como um cego que toca uma cara. E olhando para o céu que era aquela pirâmide de tijolo vermelho escuro fiquei escutando os sons da noite viva. O luar respirando. Adormeci.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

´´Uma introduçao à vida (pós-)colonial``

“UUUUUH! Isto cheira mal! Ai! Ai! Foste agora pôr-me um titulo destes, maldito! E logo hoje!” ”Chiuuu, já se explica, shuuuuu’’ Tolerância de ponto. Longa Vida ao Rei. Acordei e sem saber, senti-me fresco, novo. Quinze horas sempre arejam o espírito. Apesar de não estar a acordar cedo é como se o estivesse visto que furei o meu estado de hibernação sonâmbula. No gesto de uma rotina que não é, cirando os livros e o computador. Haiti. É hoje que descubro. Quanta desgraça pode assolapar uma só meia-ilha? Lembro da amiga que lá tenho. Do seu crioulo francês…coisa que fazia rir. Lembro-me da sua tristeza meiga. E vejo as fotografias que são um toque de uma mão invisível. Em breve chega a altura de sair de casa. Lá vamos nós no carrinho verde. A Costa do Sol. Domingo e pouco movimento, vêem-se ao largo da praia pessoas e o gosto da praia. Vamos mais longe e vou escutando histórias sobre aquela zona de pântanos, o seu passado. E um futuro. Mais gente, menos mosquitos. Um supermercado caro e um condomínio chinês. O destino. Coisa estranha que faz rir. Lá chegamos ao nosso destino. Uma casa de campo, vista à africana, longa e horizontal sem fim… Tem os seus ares hispânicos. Casa dos Espíritos. Brincamos com tais ideias e deixamos lá as crianças brincando na alegria da piscina. Seguimos para um encontro inesperado. Podia eu imaginar ser a próxima visita a casa do João Paulo Borges Coelho. Foi. E numa simpatia e humor deliciosos. Há que bendizer o Zé e os sítios aonde me traz. Conheci o pequeno neto que era motivo de visita, estando ainda no estado da adoração…Coisa bonita, ainda sem ter o olhar sem névoa mas já cheio de cabelo. É um mistério bem fechado…o que as crianças despertam de carinho na mente. E foi aqui. Entre as conversas bem-dispostas sobre o neto ou sobre a tomada de posse e a fanfarra que aconteceu. Introdução a vida (pós-) colonial. Não. Nada tão obscuro. Whisky com soda. Simples. Só Whisky com Soda. Como bebiam os colonos. Ri-se de ser de bêbado disfarçado. E bebe-se. (“vês que não era assim tão mau?”). E longa vida ao Rei. Assenta no trono e contempla, imenso. Mas não se ri somente. Haiti. Ouvimos a história de um antropólogo moçambicano que por lá está. Omar. Saindo da livraria com uma amiga, subiu veloz uma enorme nuvem de poeira e não se via nada. O tremor ensurdecedor e depois da poeira cair corpos. Corpos por toda a volta. Além uma bomba de gasolina explodiu, pessoas correm, tentado desesperadamente fugir ao fogo que as desfaz. A livraria, e tudo a volta, em pedaços. E corpos. Corpos por toda a volta. O edifício da ONU onde trabalhava ruiu, a casa não mas dormiu-se fora. Aflige o não existir maneira de ajudar mais que um vizinho, e faze-lo é tomar a fragilidade de vidas entre as mãos incertas. A noite, dormindo no jardim, no vislumbre a meia-lua dos destroços e dos corpos passa entre réplicas. A cada réplica ouve-se acima do tremor o som das pessoas cantando, as pessoas dançando. “Oh Bon Dieu”. Voodoismo. Das tripas da terra o tremor dos demónios.

Voltamos. E chegado a casa entrego-me a ler mais sobre a situação do Haiti e logo trabalho no blog. Perco-me em coisas mais leves e não sabendo porque caminho acabo vendo pedaços do “Fiddler on the roof”. Passa o tempo e leio, falo com pessoas a milhas graças aos meios obscuros da matéria. Vem o jantar, e um tom de despedida. Uma outra história sobre o Haiti. No tempo do Papa Doc, como uma mulher de glamour e classe, fazia festas de ar condicionado ao máximo para poder pavonear-se com o seu casaco de peles. Quanto existe daí ao de agora?

Foi um dia carregado de Guebuza, Haiti e recomendações para estes seis meses de missão. Sinto uma certa ânsia, uma certa ansiedade costas contra as costas de alegria, de calma. E saudades. De longe o tambor, as vozes dos Macuas. E o mar.

Chocolates polacos em Maputo

Bem-vindo a casa. Chego de Joanesburgo a meio da manha. Maputo espera, já acordou a muito tempo, deixou a cama e já anda trabalhando e espera. Como quem não deu conta que voltou. Saio do avião e (até que em fim) sinto os meus pensamentos em remoinho irem poisando como a poeira que recobre o chão e acato os pragmatismos do momento. Passaporte, preencher a ficha de entrada no país, recolher a bagagem. Como se ensaiado segue-se um ao outro até ficar parado frente ao tapete de plástico escuro, pegajoso a um meio adormecido como a visão de alcatrão que não está seco. Roda, vai rodando. E da mala nada. Vejo-a e desaparece. Antes mesmo de sair das linguetas da maquinaria caiu. Mas antes de crescer algum problema, a gente lembra-se que já se saiu da Europa e suas paredes e num pulo já uma senhora do aeroporto entrou nas entranhas das bocas que encaminham as malas, que dum engasgo depois soltam a minha mala para as linguetas. Sorrio. Sorrio por são gestos destes que fazem a ideia África, que é tão grande que lhe tiveram de entregar um continente, e que tem discreta uma humanidade diferente. Entre os pensamentos também saio, e ágil esquivo o esventrar-me a mala à Alfândega. De quem me espera não vejo sinal… “Talvez pela outra entrada”…passo e de malas a darem-me um equilíbrio estranho atravesso o átrio do aeroporto. Como num sonho vão aparecendo as personagens que conhecemos sem saber quem são. E os contornos são desfocados, enevoados. Dou meia volta e lá vejo no primeiro lugar em que olhei o Zé com um livro. Bem-vindo a casa. De novo. Mas de nunca. No carro verde são os meus reflexos que enferrujaram, é pela esquerda. Maputo de volta vive e eu continuo dentro do sonho em que acordei e antes acordara Maputo. Chegado e frente a frente não sei bem o que fazer, não sei bem o que estou a pensar. Olhos abertos, quantos os tenho, vou deixando-me levar pelas cores, os cheiros e o enraizar leve das memórias pousadas ao lado dos sonhos. O dia passa-se num tempo pouco perceptível, supresso ao corpo mais calor, voga devagar e não me deixa dormir. Redescubro as estantes cheias de vozes que esperam a vez. Abro um e passo a mão nas lombas, abro outro. Na maravilha de os ouvir um pouco um certo pudor, o pudor inevitável dos pequeninos. Não me acordam a este tempo mas conduzem-me a outros feitos sereias…China in Africa. É uma sombra que o sol apanha. Outras vozes soam-me em reencontro. Pescadores Macua. E dentro de cada uma tantas mais que não se deixaram desconhecer pelo tempo. Há uma familiaridade que subsiste. Pego num dicionário, e no gesto que durante meses repeti abro ao acaso. Português-Macua. E vou-me perdendo. Lembro-me logo da promessa de fazer um relato por blog. Folheio mais. Folheio.

Mukwatelo. Apagam-se as outras ideias de títulos, e desfazem-se em pó, um pouco ridículas, envergonhadas. Aberto o espaço lanço-lhe o Imbróglio e deixo-o ficar sem saber muito bem se o que fiz teve algum jeito. Folheio mais e entre os tempos das folhas e as sereias inesperadas (que talvez me puxassem mesmo ao rochedo; dizia o Zé, “tu comecas a fazer perguntas de mais e torna-se perigoso”). Chamam-me para o almoçar. E de entre o sono e o enevoado tomo gosto a companhia, ao tempo de mesa. E há coisas que acontecem para provocar espanto, para fazer sorrir à ironia do destino. Mlesczko. Uma maneira estranhamente,inesperadamente doce de fechar o tempo…Chocolates polacos em Maputo. Tudo que se entremeia, tempos, ideias e consciências. A tarde que se seguiu foi menos medida…fui aproximando-me do sono a passos tímidos e acabei por nele cair. Por 15 horas. Do lado de fora, Maputo em chocolates polacos. Bem-vindo a casa.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Imbróglio ao pairar sobre Africa

Pois não pudera ser outro o jeito profundo na alma…Dos traços do Antepassado largo e irreal, o mesmo eco desassossegado levantando-se. Deixar casa. Adeus. Um deixar-se a Deus; não se sabe quem se perde, quem fica perdido. O Barco Negro. E a praia é no espaço que não existe, o eterno tempo de espera, o velho tempo de quem perde a conta a lua, o velho tempo escondido da loucura. Persiste e entre as velas e a luz o mar cheio. Meio de morrer, meio de nascer. Afinal há-de ser isso a viagem. Fénix. Vento, vento nas asas e o sonho a ardendo o voador.

O gesto antigo. Lançar-se. Histórias que se ouvem suspeitam que seja fruto do sangue. Serei o menino de lenço brincando de marinheiro que se dá ao mar, que o leve a desgraça e a fortuna, para longe? Serei da linhagem?

Destoa algo mais velho em mim, algo mais simples. L’Étranger. Não sabe bem…veio e não sabe bem se procura, se foge, se espera. ‘’Se não sabes onde vais porque teimas em correr?” E a Missão. Não tem nada de divino, não há nada de heróico. Atrevido talvez, descuidado, naive algures…o gesto de ser-se. Lançar-se. O abismo coincide com o horizonte. O palpitar da morte vive e tem que viver. Dar-lhe mais que o Corte seria deixá-lo sorver tempo e folgo que pertence a outros lugares. A cedência ao medo, o ‘’worst-case scenario”, o “e se acontecer” combatem-me a confiança, sorrateiros cobrem, feitos sombras trepadeiras, as costas do eco primeiro. Entregar-se. O fundamento da sociedade, o impulso irreprimível de ajudar. Confundiram-se indiferença e força, mas o meu diz-me de dentro aponta que a força na sensibilidade. É difícil partir, é difícil fechar uma porta sem chave a voltar a abrir. E aqueles que se deram 40 anos àqueles meninos, aos brinquedos de engenho e lata? E os que continuaram além-mar e esperam notícias no contínuo dos seus caminhos sem deixar de ajudar? O que existe entre mim e esses outros eus e alguém dos dois lados a volta da praia…?

Partindo tenho saudades do tempo em que hei de voltar…Voltando terei saudades do tempo em que havia partido…E é assim que me faço na viagem de cabine que é o avião… 12 horas são bom tempo para cair em tais imbróglios de pensar, labirintos de quem pergunta demais e sabe de menos… Aqui uma tentativa de beleza e um perfil vestido de sentimento e algures trágico. O Barco Negro. Ali um espírito quase filosófico, olhando-se a si de fora e decretando névoas verdades ou propostas sabedorias. A consciência do ciclo e a vontade de crescerem asas. Fénix. Mais as lembranças e o incerto tempo por trás das ideias. Aqui o estranhar, como no aperceber-se estar-se a dormir ainda dentro de um sonho, e a desconfiança profunda de ter na natureza a palavra sozinho, de não ter País. L’Étranger. Ali a palavra do gesto, do jeito, da viagem, do espírito, da confiança. Missão. Entremeando-se na luz o medo dizendo mágoa dizendo Corte. Mais fundo ainda a intenção debatendo-se com o valor da sua importância, por se saber dentro de um pequeno. Entregar-se. Aonde começa, aonde acaba? E o segundo lado de um bilhete de ida e volta. E o espaço entre dois passos. E o passo entre dois mundos. E uma praia entre duas almas de uma só pessoa. Nas mãos de mistério do Tempo voo.

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