Bem-vindo a casa. Chego de Joanesburgo a meio da manha. Maputo espera, já acordou a muito tempo, deixou a cama e já anda trabalhando e espera. Como quem não deu conta que voltou. Saio do avião e (até que em fim) sinto os meus pensamentos em remoinho irem poisando como a poeira que recobre o chão e acato os pragmatismos do momento. Passaporte, preencher a ficha de entrada no país, recolher a bagagem. Como se ensaiado segue-se um ao outro até ficar parado frente ao tapete de plástico escuro, pegajoso a um meio adormecido como a visão de alcatrão que não está seco. Roda, vai rodando. E da mala nada. Vejo-a e desaparece. Antes mesmo de sair das linguetas da maquinaria caiu. Mas antes de crescer algum problema, a gente lembra-se que já se saiu da Europa e suas paredes e num pulo já uma senhora do aeroporto entrou nas entranhas das bocas que encaminham as malas, que dum engasgo depois soltam a minha mala para as linguetas. Sorrio. Sorrio por são gestos destes que fazem a ideia África, que é tão grande que lhe tiveram de entregar um continente, e que tem discreta uma humanidade diferente. Entre os pensamentos também saio, e ágil esquivo o esventrar-me a mala à Alfândega. De quem me espera não vejo sinal… “Talvez pela outra entrada”…passo e de malas a darem-me um equilíbrio estranho atravesso o átrio do aeroporto. Como num sonho vão aparecendo as personagens que conhecemos sem saber quem são. E os contornos são desfocados, enevoados. Dou meia volta e lá vejo no primeiro lugar em que olhei o Zé com um livro. Bem-vindo a casa. De novo. Mas de nunca. No carro verde são os meus reflexos que enferrujaram, é pela esquerda. Maputo de volta vive e eu continuo dentro do sonho em que acordei e antes acordara Maputo. Chegado e frente a frente não sei bem o que fazer, não sei bem o que estou a pensar. Olhos abertos, quantos os tenho, vou deixando-me levar pelas cores, os cheiros e o enraizar leve das memórias pousadas ao lado dos sonhos. O dia passa-se num tempo pouco perceptível, supresso ao corpo mais calor, voga devagar e não me deixa dormir. Redescubro as estantes cheias de vozes que esperam a vez. Abro um e passo a mão nas lombas, abro outro. Na maravilha de os ouvir um pouco um certo pudor, o pudor inevitável dos pequeninos. Não me acordam a este tempo mas conduzem-me a outros feitos sereias…China in Africa. É uma sombra que o sol apanha. Outras vozes soam-me em reencontro. Pescadores Macua. E dentro de cada uma tantas mais que não se deixaram desconhecer pelo tempo. Há uma familiaridade que subsiste. Pego num dicionário, e no gesto que durante meses repeti abro ao acaso. Português-Macua. E vou-me perdendo. Lembro-me logo da promessa de fazer um relato por blog. Folheio mais. Folheio.
Mukwatelo. Apagam-se as outras ideias de títulos, e desfazem-se em pó, um pouco ridículas, envergonhadas. Aberto o espaço lanço-lhe o Imbróglio e deixo-o ficar sem saber muito bem se o que fiz teve algum jeito. Folheio mais e entre os tempos das folhas e as sereias inesperadas (que talvez me puxassem mesmo ao rochedo; dizia o Zé, “tu comecas a fazer perguntas de mais e torna-se perigoso”). Chamam-me para o almoçar. E de entre o sono e o enevoado tomo gosto a companhia, ao tempo de mesa. E há coisas que acontecem para provocar espanto, para fazer sorrir à ironia do destino. Mlesczko. Uma maneira estranhamente,inesperadamente doce de fechar o tempo…Chocolates polacos em Maputo. Tudo que se entremeia, tempos, ideias e consciências. A tarde que se seguiu foi menos medida…fui aproximando-me do sono a passos tímidos e acabei por nele cair. Por 15 horas. Do lado de fora, Maputo em chocolates polacos. Bem-vindo a casa.
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