Foi um pouco mais que uma semana e muito mais que tal. No primeiro dia de volta a Nampula despedi-me de um menino crescido da Ilha que voltava depois de 10 anos de ausência. Um encontro inspirador. Recolhido pelo P. Zé Luzia segui o ritual de reconhecimento da Cidade e as memórias foram voltando ao espaço da realidade, ganhando cores, acrescidas de detalhes, novos e de antes. Passei a manhã na ânsia de chegar à Missão com a sensação de que me esperavam com algum festejo. Estivemos na Rádio, o último sítio que tinha conhecido antes de partir. Mas logo se introduziram lugares de fora da memória. Um gabinete do governo provincial. Fora num banco, entre os cidadãos requerentes de audição, fui bebendo o movimento matinal na discrição que é o canto de um alpendre ao lado de uma parede cheia de declarações e anúncios e avisos do poder regional. Logo foi uma loja indiana. Nesta tomei gosto particular porque juntei a tal o conhecer de uma das famílias indianas abastadas de Nampula…o que não deixa de fazer sorrir. Assisti a conversa no seu gesto de Oriente e as falas dos negócios e a pausa para rezar e as inscrições em sânscrito e as suratas dissimuladas no escritório de tinta branca fresca. Veio o P. Jacob às mãos do acaso e saio sujando as mãos na tinta fresca por acaso. Dei pela situação mais engraçada da manhã, o chefe da loja com a sua camisa aberta sobre os pelos peitorais e com os seus 6 dedos anelares brilhando até ao rolex do pulso saiu. Voltando trazia uma pasta pokemon de criancinha; ela aberta tirou-lhe grandes maços de notas altas de meticais atadas ao elástico. Parecia de um filme onde se assaltara um banco. Mas o invólucro estava longe da pasta preta forte ou dos sacos castanhos-claros do far-west. Chegado o tempo de rezar saímos e seguimos para um almoço diferente do primeiro suposto (que era na Missão). Não é que foi o Sporting de Nampula. Não houve sopa de feijão e faltou a companhia do Joaquim. Mas chegou-nos uma companhia inesperada o João de Nacala com as suas filhotes e um filho que não tinha conhecido. Entre feijoadas e jardineiras a querer dizer Portugal passou as bocas e em breve era tempo de se despedir. Na avenida, perto do Museu e do colégio lusófono lá estavam juntos os muitos vendedores de frutas e legumes de época pronto a gladiarem-se com o P. Zé Luzia com o regateio. Mas desta vez nada se comprou e pós uma curta paragem o itinerário cedeu a minha insistência e fomos para o Marrere.
Tinha perdido o almoço e aparentemente não me esperava nenhum festejo. Na verdade por algum mistério o P. Pedro tinha pedido ao P. Zé Luzia que me alojasse. Nem tinham preparado quarto?!? Fui deixar as coisas a casa de Luzia e apesar de desapontado apreciei o reencontro com a pirâmide hexagonal que na minha primeira vinda orientara os meus sonhos. Chegando à escola apercebi-me de que tudo estava num enorme alvoroço. Chegavam os internos. Bem-vindos ao que estão de volta. Bem-vindos aos novos. Meninos da UNHCR são os que precisam de mais atenção. Burundi. Congo. Falo-lhes francês e isto fá-los sorrir um pouco. Encontro os conhecidos. Rui. Howard. Gérson. O congolês. O Engenheiro. O Advogado. Dionísio. Distribuir por quartos, contar baldes, colchões e lembrar regras. E o Pedro envia-me para ir ajudar as irmãs ao lar feminino. Novas irmãs. Vinham da Zambézia e de um lado para o outro indicavam as meninas os seus quartos, apresentavam-se, perguntavam por escadas, lâmpadas, avaliavam esta sua nova casa. Orientadas as meninas para os seus dormitórios assistimos a primeira chuva tropical. A chuva riachando a terra. Nós esperando, fui ouvindo histórias da Zambézia. Vinham para o lar 4 irmãs e estavam hoje a irmã superior, de Quelimane e um rapaz educado pelas irmãs, diligenciando-se. Fizemos pontes enquanto os muros de pedra esguichavam a água corrente. Marcamos as faltas, os sítios onde entrava água. Falei de como as coisas funcionavam antes, falaram-me de como queriam que as coisas funcionassem agora. Fiquei contente por ver o pulso, o novo sopro e despedi-me porque chegavam horas de jantar. Fui jantar com os Missionários. Foi calmo e no entanto resistia em mim o incómodo de não me ter preparado sequer quarto. Chegada a hora saí e a chuva caia gorda pesada…Acompanharam-me 3 amigos e foi bom falar um pouco daquilo que há tanto nada… Chegado o P. Zé Luzia riu-se do meu cortejo. Bebemos uma caneca de chá e pós um breve serão e o vapor de Agosto no ar foi cada qual para o seu quarto. Deitei-me e as minhas costas reconheceram o colchão-tábua como um cego que toca uma cara. E olhando para o céu que era aquela pirâmide de tijolo vermelho escuro fiquei escutando os sons da noite viva. O luar respirando. Adormeci.
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