sábado, janeiro 16, 2010

Diluvial

D

Após uma manhã de curtos trabalhos e de perseguir pessoas esticando anotações das necessidades imediatas, veio o P.Zé Luzia desafiar-me para depois de almoço seguirmos para Nacaroa. Pedida a autorização especial ao meu patrão aceitei o desafio. Fiz o par de telefonemas importantes para a LEYA e para a FDC e logo seguiram-se o par de e-mails e muita alegria na sensação de ter feito algo de valor. Depois de ter almoçado fiquei lendo um pouco, arranjei mochila e logo esperei Zé Luzia. Demorou e cedi a tentação de ir fazer um, dois, três jeitos na escola já que tinha um pouco de tempo. Zé Luzia chegou e foi agarrar na mochila e partir. Íamos fugindo das nuvens grossas, frondosas que se juntavam vindo a passos lentos de leste. Parámos na Faina para por gasolina e perdemos o adianto. Veio de gotas grossas, maiores que ontem e em nada estávamos como se numa tempestade tropical de filme. Água por todo o lado, água entrando para dentro do carro, eu a limpar o vidro com um trapo porque o sistema do carro não chegava, as poças enormes saindo dos buracos da estrada, as pessoas ora correndo ora indiferentes a chuva quente, e os carros em ainda maior confusão, saltando, derrapando, caindo. Passamos Nampula e o caminho para Namialo estava verde, verde, verde vivo de capim alto. Rodávamos mais rápido que a chuva e em breve estávamos em caminho já secos e o Padre não pode resistir às paragens para negociar castanha de caju. Falando-lhes Macua ria, apontava as malgas furadas, o caju mal descascado, tentava negociar um vestido contra caju e por fim enchia sacos e arrancava de novo. A maioria dos vendedores era meninos pequeninos e reclamavam o dinheiro para comprar livros para a escola. Seria só por uma vez verdade? Não importa, antes de ler ou escrever é preciso ter roupa e comida, mas entrava no jogo no regateio como tentativa de amolecer o Padre regateador habitué. Quando se acabaram as compras seguimos caminho com mais meia hora de atraso. Agora nos calcanhares da chuva que nos perseguia vinha a noite anunciada. Pouco depois de tomarmos a estrada para Nacaroa o céu lançou-se sobre nós em chuva e noite. Não caiu, não pingou, não se estilhaçou. Lançou-se. Diluvial. Os sacos de caju encheram-se de água e o meu trapo não melhorava quase nada a visão. Mais e mais água e o caminho parecendo cada vez mais longo e o destino parecendo cada vez mais longe. Pedíamos indicações e vinham a contra-senso. As mamãs fugiam de nós quando desacelerávamos. Íamos de trás para a frente e não víamos sinal da Missão. O P. Alexandre não atendia o telemóvel. Por fim depois de kilometros gastos em volteares dentro da chuvada pareceu-nos ver o sinal da Missão. Apontei-lhe a lanterna mas a lanterna só iluminava as gotas grossas que caíam mais perto. Arriscámos a entrada naquele caminho perdido no mato. O P. Zé Luzia disse reconhecer e eu senti alívio porque uma parte de mim já se via a passar a noite dentro do jipe trancado a beira estrada, a beira mato. O caminho só se complicava mais, buracos, raízes atravessadas, montes de terra e mais chuva e mais terra deslizando. Ao longe viam-se os fogos nos pátios macuas, cores de brasas meias caladas. O caminho não parecia acabar, parecia desdobrar-se a medida que o descobríamos. Veio-me a ideia de nos estarmos a meter no meio do mato e não a caminho da Missão. Mas quando já nós convencíamos de que era um caminho errado vimos as casas da Missão e sobre a trovoada a magnifica igreja de Nacarôa com o seu ar de Catedral. Que raio faz esta igreja de ares europeus e torreão no meio do mato? Eu disse rindo que agora apenas faltava que não houvesse ninguém a nossa espera. De repente uma luz branca apontou para nós e veio correndo. A casa do Padre Alexandre as luzes estavam todos apagadas e só a tempestade lançava raios para se lhe verem esboços. Era o guarda. “O Senhor Padre não está”. Caíram o Carmo e a Trindade. “Foi ver as irmãs.” Mais viagem e outro lugar no meio daquele mato mais uns 20 km a norte. Luzia teve a ideia de ver se a porta estava aberta. E a porta abriu. Entrámos na casa grande, com um corredor central de tecto muito alto. A trovoada ribombando parecia uma verdadeira casa dos filmes de terror de Hollywood onde um qualquer demónio se apodera dum louco que acaba matando todos numa casa perdida no meio da floresta. Impôs-me respeito e fez-me rir de mim mesmo. De lanternas na mão fomos tacteando a casa aos poucos. Roubamos a vela à capela e fiat lux. Encontrada a cozinha e a sala de jantar atacámos o que podíamos trincar. Não encontramos muita coisa visto que a dispensa estava trancada mas pelo gesto em que juntamos de aqui e ali comida foi um jantar em espírito frugal. Leite com chocolate e um pão com mel. Foi a primeira vez que me lembro de beber leito com chocolate a partir de água quente e um pozinho branco duma lata dizendo NIDO. O Padre comeu queijos da vaca que ri absolutamente podres nos seus pães. Logo auto-atribuímo-nos quartos e pousámos as nossas coisas. Feita a instalação o Padre decidiu ir buscar o Alexandre às irmãs. O guarda iria com ele e mostrar-lhe-ia o caminho. Rimo-nos do pequeno medo que sem palavras sabíamos ambos residir em mim. Mas lendo esvaiu-se, lia uma revista paroquial de informação sobre a SIDA, que me impressionou dada a sua clareza e a maneira como não se deixava cair em nós de sete línguas. Não notei que o padre não saiu, e só me apercebi disso quando ouvi a porta abrir e a voz contente do Alexandre. A última vez visto tinha sido há 3 anos em Bruxelas. Como o tempo transforma… Cá estava aquele jovem diácono agora mestre de uma Missão no meio do Mato. Ligou-nos gerador, mostrou-nos a casa e riu-se, riu-se, mostrou-me a sua rádio e contou como passava as vezes muito tempo a tentar apanhar bem uma emissora. Já era tarde, fomos cada a seu quarto depois de um pouco de conversa sobre o caminho diluvial, o amanhã e outros dias de entretanto. O vento soprando e da minha janela a enorme Igreja de Nacaroa, o seu torreão (que Zé Luzia baptizou Spoutnik) e sonhos na alma.

1 comentário:

  1. Fez-me sentir como se lá estivesse! no meio do dilúvio, de noite, a chegar à missão!
    Continue a escrever filho! Faz-nos sentir o que vai sentindo!

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