“UUUUUH! Isto cheira mal! Ai! Ai! Foste agora pôr-me um titulo destes, maldito! E logo hoje!” ”Chiuuu, já se explica, shuuuuu’’ Tolerância de ponto. Longa Vida ao Rei. Acordei e sem saber, senti-me fresco, novo. Quinze horas sempre arejam o espírito. Apesar de não estar a acordar cedo é como se o estivesse visto que furei o meu estado de hibernação sonâmbula. No gesto de uma rotina que não é, cirando os livros e o computador. Haiti. É hoje que descubro. Quanta desgraça pode assolapar uma só meia-ilha? Lembro da amiga que lá tenho. Do seu crioulo francês…coisa que fazia rir. Lembro-me da sua tristeza meiga. E vejo as fotografias que são um toque de uma mão invisível. Em breve chega a altura de sair de casa. Lá vamos nós no carrinho verde. A Costa do Sol. Domingo e pouco movimento, vêem-se ao largo da praia pessoas e o gosto da praia. Vamos mais longe e vou escutando histórias sobre aquela zona de pântanos, o seu passado. E um futuro. Mais gente, menos mosquitos. Um supermercado caro e um condomínio chinês. O destino. Coisa estranha que faz rir. Lá chegamos ao nosso destino. Uma casa de campo, vista à africana, longa e horizontal sem fim… Tem os seus ares hispânicos. Casa dos Espíritos. Brincamos com tais ideias e deixamos lá as crianças brincando na alegria da piscina. Seguimos para um encontro inesperado. Podia eu imaginar ser a próxima visita a casa do João Paulo Borges Coelho. Foi. E numa simpatia e humor deliciosos. Há que bendizer o Zé e os sítios aonde me traz. Conheci o pequeno neto que era motivo de visita, estando ainda no estado da adoração…Coisa bonita, ainda sem ter o olhar sem névoa mas já cheio de cabelo. É um mistério bem fechado…o que as crianças despertam de carinho na mente. E foi aqui. Entre as conversas bem-dispostas sobre o neto ou sobre a tomada de posse e a fanfarra que aconteceu. Introdução a vida (pós-) colonial. Não. Nada tão obscuro. Whisky com soda. Simples. Só Whisky com Soda. Como bebiam os colonos. Ri-se de ser de bêbado disfarçado. E bebe-se. (“vês que não era assim tão mau?”). E longa vida ao Rei. Assenta no trono e contempla, imenso. Mas não se ri somente. Haiti. Ouvimos a história de um antropólogo moçambicano que por lá está. Omar. Saindo da livraria com uma amiga, subiu veloz uma enorme nuvem de poeira e não se via nada. O tremor ensurdecedor e depois da poeira cair corpos. Corpos por toda a volta. Além uma bomba de gasolina explodiu, pessoas correm, tentado desesperadamente fugir ao fogo que as desfaz. A livraria, e tudo a volta, em pedaços. E corpos. Corpos por toda a volta. O edifício da ONU onde trabalhava ruiu, a casa não mas dormiu-se fora. Aflige o não existir maneira de ajudar mais que um vizinho, e faze-lo é tomar a fragilidade de vidas entre as mãos incertas. A noite, dormindo no jardim, no vislumbre a meia-lua dos destroços e dos corpos passa entre réplicas. A cada réplica ouve-se acima do tremor o som das pessoas cantando, as pessoas dançando. “Oh Bon Dieu”. Voodoismo. Das tripas da terra o tremor dos demónios.
Voltamos. E chegado a casa entrego-me a ler mais sobre a situação do Haiti e logo trabalho no blog. Perco-me em coisas mais leves e não sabendo porque caminho acabo vendo pedaços do “Fiddler on the roof”. Passa o tempo e leio, falo com pessoas a milhas graças aos meios obscuros da matéria. Vem o jantar, e um tom de despedida. Uma outra história sobre o Haiti. No tempo do Papa Doc, como uma mulher de glamour e classe, fazia festas de ar condicionado ao máximo para poder pavonear-se com o seu casaco de peles. Quanto existe daí ao de agora?
Foi um dia carregado de Guebuza, Haiti e recomendações para estes seis meses de missão. Sinto uma certa ânsia, uma certa ansiedade costas contra as costas de alegria, de calma. E saudades. De longe o tambor, as vozes dos Macuas. E o mar.
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