Tempo onde não havia medo de cair
Tempo onde me chamavam Peter Pan
Pelo ar e o espaço pertencerem
As piruetas do menino caleidoscópio
Tempo em que o Anjo da Guarda
Existia a tempo inteiro, e vigiava
Pairando-me acima do perigo
Carregando-me a consciência
Para eu puder brincar mais um pouco
Tempo em que cada palavra
Se fazia inteira e imparável
Repetida a dias completos
Na sua ébria cheia de poesia.
Tempo em que as palavras seduziam
Tempo em que trepar a uma árvore
Era mais fácil que subir a uma escada
Em que não havia mais monstros
Que o medo deles no escuro da noite
Tempo em que ver o mundo era ser mestre
Infância de um ramo alto e forte de um sobreiro
Estás agora fora do alcance da minha extensão
E subir seria quebrar esse mundo com
O peso dos meus pensamentos…
Deixa-me antes olhar tendo subido a esta escada
Deixa-me ver-te nos outros meninos
Que ainda tem olhos e bocas e tantos sonhos…
O Tempo de longe, o Tempo sempre perto
O Tempo onde os olhos,
Os meus olhos
Brilhavam de facto
E ainda nada tinha desbotado.
(Aos meninos acendalha-de-sonho)