quinta-feira, julho 01, 2010

Beijo-África

Oiço o ritmo chamar
Toca toca vai tocando sem fim
Num gesto profundo além e em mim

Vejo as pessoas que foram
As que já não são
Vejo olhares que se deram
E perderão a mão
Vejo sonhos levantados
E recolho-os do chão

Oiço o ritmo cantar
Toca toca vai tocando sem fim
Numa palavra desconhecida e em mim

Sinto as pessoas que são
As que nunca deixarão
Sinto olhares que me eram
O calor do coração
Sinto sonhos sibilados
E guardo-os do chão

Oiço o ritmo levantar
Toca toca vai tocando sem fim
Numa dança já velha dentro de mim


O tambor que me leva
Dum tempo que nunca será
Os segredos de cem olhos
No desejo de quem virá
Uma alma leve e maior
Que o tambor cresceu
Força e clamor
Num beijo que anoiteceu
Houve um homem que um dia desafiou
Os deuses mortos do Olimpo

Mão serena e lábio pronto
À palavra, ao sorriso.
À Palavra um sorriso
E um sonho terno e cuidadoso
De quem traz no mundo uma criança sem mãe

Olhos vivos
Coragem crescendo
Ideias voando fazendo voar
Lá longe de dentro um ruído do mar
E frente a mim a razão do tempo nunca nunca parar.

Mão serena e olho pronto
À palavra, ao segredo.
Poesia num livro sempre por folhear
Mulheres numa carícia por desfolhar
Sonhos numa loucura de quem traz o mundo para o fazer voar

Desfiando o mundo numa bicicleta leve
As paisagens rodando como a roda
A beleza delgada e descalça
Em redor de quem viagem
Fez-se ser um poeta
O meu amigo
Dionísio dos Santos

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